Is this real?
Os bêbados das três horas da manhã, em todos os Estados Unidos, fitavam as paredes, depois de terem finalmente desistido. Não era preciso ser bêbado para se machucar, para cair sob a mira de uma mulher; mas a gente podia se machucar e se tornar um bêbado. Você podia pensar por algum tempo, sobretudo quando era jovem, que estava com sorte, e às vezes estava mesmo. Mas havia todo tipo de médias e leis em ação das quais você nada sabia, mesmo quando imaginava que tudo ia indo bem. Uma noite, uma quente noite veranil de quinta-feira, você se tornava o bêbado, você estava lá fora sozinho num quarto de aluguel barato, e por mais que tivesse visto isso antes, não adiantava, era até pior, porque você tinha pensado que não teria que enfrentar aquilo de novo. A única coisa que podia fazer era acender mais um cigarro, servir outra bebida, examinar as paredes descascadas em busca de olhos e lábios. O que homens e mulheres se faziam uns aos outros estava além da compreensão.

-Charles Bukowski.  

A vida não é um livro do John Green, um verso da Clarice Lispector, uma história comovente do Nicholas Sparks. Está mais para a loucura incompreensível de Bukowski, que se abastecia com o hábito de escrever a realidade podre em frente ao computador. Era um amor sem fim entre ele e a escrita, e talvez ainda seja, caso o inferno exista. O velho, se tivesse oportunidade de escolher entre o inferno e o céu, com certeza escolheria a companhia do diabo, que o deixaria em paz com o seu repertório de poemas mandando os deuses irem à merda. “Foda-se os deuses”, ele dizia. Assim era Bukowski, desprezador das delongas e da fantasia que move os romances comuns, a literatura comum. Entre um copo e outro, uma tragada no cigarro. Entre uma tragada e outra, uma frase, um parágrafo, uma história inteira, um brilhantismo intenso escorrendo como água na torneira. Palavras em cima de palavras, cuspidas com a mais sublime depreciação, traçando o roteiro de várias vidas iguais. Todos nós, afundados no poço do fracasso, somos um pedaço de quem Bukowski já foi. Não com o mesmo talento, mas com a mesma perspectiva de vida.

-Junior Lima. Ah, Bukowski.